Para as mãezinhas-margarina: mentiram pra você

As agências de marketing formulam suas campanhas baseadas nos desejos, pensamentos, assuntos, medos comuns da maternidade, desde sempre, nunca pensando na pró-amamentação.

Pode anotar no seu caderninho, depois da tendência “deixa chorar” e “culpa não”, largamente explorada pela indústria nos últimos 5 anos, a bola da vez é vender coisas em nome do amor, usando vários aspectos da maternidade ativa para passar produto porcaria pela esteira do supermercado e da farmácia.

Não tarda muito para as mães amamentadeiras, empoderadas e sei lá mais qual outro rótulo supostamente progressista, começarem a figurar nas campanhas e eventos para vender as mesmas tralhas que antes eram vendidas para o arquétipo da mãezinha-margarina.

As campanhas de publicidade, como sabemos, atuam em várias mídias sendo uma delas a internet.

São grandes eleições com campanhas eleitorais o tempo todo, para ganhar o seu voto. Porque consumir é um ato político. Cada centavo que você gasta é um voto que você dá para o candidato que te representa.

Os resultados de nosso consumo são tangíveis tal e qual resultados eleitorais, e moldam nossa cultura, nosso bem estar.

Nosso consumo impacta a economia, o bem estar social, o ambiente. Não passamos ilesos, nem individualmente, nem coletivamente, pelas escolhas de consumo que fazemos, para nós e para nossos filhos.

Digite a senha, aperte o verde e pronto: você escolheu seu candidato. As mães blogueiras são os cabos eleitorais dessas campanhas que quase passam desapercebidas em sua importância.

Cada vez mais assediadas pelos marketeiros e indústrias, levam brindes, vão à eventos, disseminam o conteúdo produzido por aquele candidato.

Muitas vezes são remuneradas por eles. Já está claro que o conteúdo para mães e pais de crianças na internet está contaminado por esses interesses.

Nas revistas e nas mídias não convencionais. Tem muita gente votando na indústria, e querendo seu voto.

É extremamente importante fazer campanhas pró-amamentação

Ponto Pacífico aqui, minha crítica é para campanhas de amamentação com interesses industriais através da manobra do usuário na internet.

De fato, se hoje conseguimos amamentar exclusivamente o pouquinho que conseguimos (54 dias aqui no Brasil) isso se deve ao sucesso das campanhas das últimas três décadas, feitas pelas mãos desse pessoal aí de cima.

Mas quando voltamos os olhares para a internet materna, permeável ao interesse das indústrias, a coisa muda de figura: está cheio de campanha “pró-amamentação” financiada por produtos, licenciadores ricos de publicidade infantil e outras marcas.

Essas manifestações requerem um olhar mais atento por parte do leitor.

Simplesmente porque – mesmo que a indústria tenha criado a cultura de que é preciso muita coisa, muito produto, muita tecnologia, muita medicina, muito de tudo, para criar filhos e ano a ano, os consumidores-eleitores do mercado materno-infantil tenham votado por esse tipo de vida – está mais do que provado que amamentar não requer esse tipo de recurso.

O voto para esse candidato não garante a promessa de campanha: “defender a amamentação”.

Esse tipo de campanha quer ser descolada. Quer estar do lado “bom” da força. Quer ter aderência com esse novo nicho, mães com menor teor de margarina.

Quer emplacar a ideia (falsa) de que está ali para disseminar o amor.

Amor, filhos, parto, saúde, amamentação, criação, educação e tantos outros valores e práticas da vida humana NÃO PERTENCEM À INDÚSTRIA. São nossos.

Um caso de campanha-apropriação é a pomadinha de lanolina.

Pomadinha de lanolina
Pomadinha de lanolina

Pode ter certeza, que individualmente uma pomadinha de Lanolina salvou a amamentação de alguém. (Alguém que para começar, tinha cinquenta pilas para gastar num tubo de poucas gramas).

Nesse ponto não estou questionando a eficácia do produto – faço isso em dois parágrafos.

O que quero pontuar é que há mais rachaduras e desmame precoce entre as histórias individuais e nossas atitudes coletivas do que sonha nossa vã filosofia.

Coletivamente, o que precisamos fomentar do ponto de vista da amamentação é o que indústria nenhuma tem interesse em apoiar. Porque os levaria à falência!

Amamentar é (também) cultura.

Defender a cultura da amamentação é defender que – com apoio humano, profissionais especializados, políticas públicas eficientes e proteção social – todas as mulheres podem amamentar. Sem aparatos. Sem medo. Sem dor. Sem dependência. Sem apetrecho.

Em quem você vota? No candidato que diz que você precisa dele para aleitar seu filho? Que manipula as informações para parecer legal, mas na verdade só quer vender mais?

(Por favor, não fique parado aqui pensando que a prima da vizinha realmente não tinha leite para descredibilizar o argumento. Existem sim casos RAROS em que a amamentação não é possível. Para todos os outros, o que as mulheres não tem é apoio humano especializado. Enquanto contam com excesso de apoio industrial interessado no desmame. Do ponto de vista coletivo, precisamos sanar as causas de desmame que atingem mulheres, a maioria, plenamente capazes de amamentar. Do ponto de vista fisiológico, social e cultural).

Enfermeira Márcia Madeira
Nossa Personal Mamãe Bebê, enfermeira Márcia Madeira, ajudando uma mãe a se empoderar de seu incrível poder de amamentar.

Da eficácia da pomada: nenhum coletivo de valor humano com embasamentos científico recomenda o uso pró-forma de NENHUM apetrecho para amamentação. Nem pomada. Nem bico. Nem nada.

A pomada, em si, pode causar o efeito oposto no processo de amamentação. Ela pode prejudicar a pega, escorregar a boca do bebê e causar hipersensibilidade nos mamilos.

No entanto, o uso da pomada pode ser uma solução para alguns casos de dificuldade com rachaduras e fissuras.

Impeditivos esses causados pela pega ruim. PEGA RUIM. Pelo profissional não especializado, pela falta de orientação adequada, pela ausência da cultura da amamentação: são poucas as mulheres que podem passar experiência para as próximas gerações de mães, como acontecia com nossas avós.

Vale lembrar ainda que rachaduras e fissuras podem ser curadas com aplicação tópica do próprio leite materno. E sol. De graça. Que cai do céu. E ninguém faz marketing para ele.

seio-sol

 

As indústrias estão apenas tirando vantagem do que não lhes pertence: nosso leite, nossos peitos, nossos filhos.

Um sucesso para a agência de marketing, para o licenciador que diz apoiar a amamentação hoje, e amanhã marketeia chupeta e mamadeira para o bebê e macarrão pré frito para a criança.

Nenhuma vantagem para quem amamenta. Um equívoco absoluto para o lactivismo de forma geral: uma vez que é inaceitável a ideia de que precisamos de coisas para amamentar.

Para amamentar precisamos de pessoas que amamentam. Pessoas preparadas para transferir conhecimento. Políticas públicas que favoreçam a amamentação e DISTÂNCIA da indústria e seus recursos mercadológicos.

Postagem original: Mamatraca (com adaptações)